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Agosto | 2026

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Os robôs vão roubar os nossos empregos?

O que os números da automação no Brasil realmente dizem e por que talvez devêssemos nos preocupar menos com o excesso de robôs e mais com a falta deles.
17/08/2026 Dr. Julio Cesar Frantz e Dra. Bruna Rafaela Wanderley

Toda vez que uma fábrica anuncia um investimento em automação, uma pergunta costuma surgir: “e os empregos?”

A preocupação é compreensível. O avanço de novas tecnologias sempre provocou dúvidas sobre o futuro do trabalho. Hoje, contamos com dados que ajudam a entender melhor essa relação e mostram que os efeitos da robotização sobre o emprego são mais complexos do que a ideia de que cada novo robô representa um trabalhador a menos.

A automação pode reduzir a necessidade de mão de obra em determinadas atividades, sobretudo naquelas baseadas em tarefas manuais, repetitivas e padronizadas. Também pode modificar funções existentes e aumentar a demanda por profissionais com conhecimentos técnicos para operar, programar, integrar e manter novos equipamentos.

Esse cenário muda o foco da discussão. Mais do que tentar prever quantos empregos poderão desaparecer, vale entender quais tarefas tendem a ser automatizadas, como as profissões estão mudando e se os trabalhadores estão sendo preparados para essa transformação.

Quantos robôs, afinal?

A International Federation of Robotics (IFR) utiliza o conceito de densidade robótica para medir o nível de automação industrial de um país. O indicador representa o número de robôs industriais em operação para cada 10 mil trabalhadores da manufatura e permite comparar economias de diferentes tamanhos.

Na Coreia do Sul, por exemplo, a densidade chega a 1.220 robôs por 10 mil trabalhadores, o equivalente a aproximadamente um robô para cada oito trabalhadores da manufatura.

E o Brasil?

Uma estimativa publicada pela Fundação Getúlio Vargas em 2025, com base em dados da IFR, aponta cerca de um robô para cada 830 trabalhadores no Brasil. Convertida para a mesma métrica internacional, essa relação corresponde a aproximadamente 12 robôs para cada 10 mil trabalhadores.

Mesmo considerando que diferentes fontes podem apresentar estimativas distintas para o país, o cenário é claro: a densidade robótica brasileira ainda está muito abaixo da observada nas principais economias industriais.

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Então os robôs roubam os empregos?

Os efeitos da robotização variam conforme o tipo de atividade e de ocupação. Robôs industriais são especialmente adequados para tarefas manuais, repetitivas e programáveis, como soldagem, movimentação de materiais, pintura, embalagem, montagem e paletização.

1. Países altamente robotizados continuam empregando milhões de pessoas

Se a relação entre robotização e desemprego fosse direta, países com centenas ou até mais de mil robôs para cada 10 mil trabalhadores deveriam enfrentar grandes dificuldades para manter empregos industriais.

Os dados mostram uma realidade mais complexa. Coreia do Sul, Alemanha, Japão e Estados Unidos apresentam densidades robóticas muito superiores à brasileira e, ainda assim, mantêm estruturas industriais robustas e milhões de trabalhadores empregados.

Isso não significa que a automação não tenha impacto sobre o mercado de trabalho. Algumas funções podem diminuir ou desaparecer, enquanto outras surgem ou passam a exigir novas competências.

2. O robô automatiza tarefas e transforma profissões

Imagine uma célula robotizada de soldagem. Antes da automação, um trabalhador pode passar boa parte da jornada posicionando peças e repetindo os mesmos movimentos. Com a implantação do robô, parte dessas tarefas passa a ser executada pela máquina.

A mudança pode reduzir a necessidade de trabalhadores em determinada operação, mas o processo produtivo continua exigindo pessoas para preparar materiais, configurar parâmetros, programar, abastecer a célula, acompanhar o equipamento, verificar a qualidade, realizar manutenção e solucionar falhas.

Na prática, a automação altera o conteúdo de muitas funções. O trabalho tende a se deslocar de atividades repetitivas para tarefas de operação, controle, análise e manutenção dos sistemas automatizados.

De fato, o que acontece é a máquina fazer o trabalho de máquina e o ser humano, o de ser humano. Na área de robótica, é comum escutarmos a frase: “Quando a máquina é melhor do que um humano, o trabalho é desumano”.

O risco também está do outro lado

Há outra dimensão dessa discussão que merece atenção. Evitar a automação não garante, por si só, a preservação dos empregos.

Produtividade, qualidade, custos e capacidade de competir influenciam diretamente a permanência das empresas no mercado. Uma indústria que produz com custos elevados, baixa produtividade ou pouca regularidade pode perder espaço para concorrentes mais eficientes.

"Para uma fábrica brasileira que disputa mercado com empresas estrangeiras mais automatizadas, adiar investimentos em tecnologia também pode representar um risco para os postos de trabalho."

E na nossa região?

Em uma região industrial como Brusque e os municípios do entorno, essa discussão faz parte da realidade de muitos setores. Têxtil, confecção, metalmecânica e outras atividades industriais possuem etapas repetitivas e processos nos quais a automação, a visão computacional e a robótica podem ser aplicadas.

Um bom ponto de partida para uma empresa é olhar menos para os cargos e mais para as tarefas. Em vez de perguntar “qual trabalhador podemos substituir?”, a pergunta pode ser: “qual tarefa faz sentido automatizar?”

Atividades repetitivas, ergonomicamente inadequadas, perigosas, altamente padronizadas ou que representam gargalos de produção costumam apresentar maior potencial de automação.

Nesse contexto, o trabalhador pode ser direcionado a atividades que exigem maior conhecimento do processo, tomada de decisão, controle de qualidade, manutenção e interação com sistemas automatizados. A discussão passa, então, pela capacidade de preparar profissionais para atuarem em uma indústria cada vez mais tecnológica.

O futuro do trabalho não será definido apenas pela quantidade de robôs nas fábricas, mas também pela forma como empresas, trabalhadores e instituições se preparam para utilizá-los.

Para uma região industrial como a nossa, o desafio está em conciliar automação, produtividade e qualificação profissional. Isso significa investir em tecnologia onde ela faz sentido, preparar pessoas para novas funções e criar condições para que as empresas continuem competitivas.

Os robôs certamente vão mudar parte do trabalho que conhecemos hoje. Algumas tarefas desaparecerão, outras serão transformadas e novas competências ganharão espaço. Talvez, por isso, a pergunta mais importante não seja “os robôs vão roubar nossos empregos?”, mas:

“Estamos preparando nossos trabalhadores e nossas empresas para os empregos que a automação vai transformar e criar?”

O caso Brasileiro que responde à pergunta

          Esse número, porém, esconde o que já está acontecendo. Em Brusque, Santa Catarina, a Florisa automatizou o transporte interno de sua tinturaria com cinco robôs móveis autônomos (AMRs MiR1000), integrados aos elevadores de um prédio de cinco andares, ao ERP e ao WMS. A movimentação saiu de cerca de 90 toneladas por dia, feita com empilhadeiras, para 200 toneladas por dia, um aumento de 122%, sem redução do quadro de funcionários.

         O que foi automatizado ali não foi o ofício do tintureiro: foi empurrar carga pesada de um andar para o outro. A tarefa que saiu das mãos humanas era justamente a que ninguém disputava. 🎥 Veja os robôs em operação

Fontes / Referências:

International Federation of Robotics — Robot Density Surges in Europe, Asia, and Americas. Disponível em: https://ifr.org/ifr-press-releases/news/robot-density-surges-in-europe-asia-and-americas

 

Fundação Getúlio Vargas — “A nova revolução da IA virá da robótica”. Disponível em: https://portal.fgv.br/artigos/nova-revolucao-da-ia-vira-da-robotica

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